Dentre os diversos sotaques de bumba-meu-boi encontrados no Maranhão, um dos menos conhecidos e pesquisados é o de costa-de-mão ou de Cururupu, município do litoral norte do estado. Pouco difundido fora de sua região de origem, merece atenção por suas particularidades, em especial pela beleza da indumentária e das melodias.
As roupas do bumba-boi de Cururupu consistem em camisas de manga comprida e bermudas até o joelho, feitas de veludo colorido e ricamente bordadas com canutilhos, e em chapéus em forma de funil, decorados com contas, canutilhos e longas fitas coloridas (alguns desses chapéus ostentam até 300 fitas). Completando a indumentária, sapatos e meias estendidas até o joelho. Os instrumentos utilizados são maracás de metal, um ou mais tambores-onça e diversos pandeiros feitos de armações de metal e revestidos em um dos lados por peles de animais ou plástico, com tarrachas de metal para afinação. Ocasionalmente, outros instrumentos podem ser incorporados, como um surdo ou zabumba, para auxiliar a marcação, ou um pandeiro comum, de samba, quando não se dispõe do outro. Os pandeiros, que geralmente têm entre 30 e 40 centímetros de diâmetro e entre 8 e 12 centímetros de altura, são pendurados com uma correia em torno do pescoço e batidos com a costa de uma das mãos, enquanto a outra apóia o instrumento. Essa técnica, semelhante à utilizada em certas regiões de Portugal e em alguns países árabes, é uma das marcas registradas desse sotaque, daí porque o boi de Cururupu é também conhecido como boi de costa-de-mão. A estrutura rítmica das toadas baseia-se na batida principal dos pandeiros, que lembra o vira português e pode ser representada por três semínimas e uma pausa em compasso 4/4.
As origens do sotaque de costa-de-mão perdem-se no tempo. Segundo informações prestadas pelo escritor, historiador e pesquisador Manoel Goulart Filho, memória viva da cultura popular cururupuense, já na década de 1880 existiam bois com características bastante semelhantes aos atuais, liderados por brincantes como Ataliba, Amâncio Lobo e Chico Boi. Nessa época começaram a brincar os bois de Areia Branca, fundado por Chico Boi; da Soledade, fundado por Raimundo Abreu e Gorgonha; e do Barro Branco, fundado por Lulu Salgado. Mais tarde, nos primeiros anos do século, Lourenço Melo, tido como um dos maiores cantadores de boi da região, fundou o boi do Barro Vermelho. Entre os grandes brincantes de boi do passado, além dos já mencionados, Seu Manoel registra os nomes de Chiquinho Lisboa, Pedro Lisboa, Raimundo Oliveira, Bento Grande e muitos outros. Mais recentemente, foram fundados o boi da Fortaleza, em 1950; e o boi Rama Santa, em 1961.
De início, o couro do boi era feito de um tecido grosso chamado azulão, sobre o qual se colavam enfeites de papel com cola de tapioca. Mais tarde veio o cetim e, finalmente, o veludo, bordado com paetês e lantejoulas e, depois, canutilhos. Segundo depoimentos de brincantes, até a década de 70 as roupas eram bem simples, em nada lembrando o luxo das atuais. Como diz seu Edmundo, dono do boi da Fortaleza, "boi de antigamente não tinha luxo, a gente comprava a roupa de manhã, de tarde já tava brincando nela. Agora não, demora muito tempo pra bordar." Quanto aos instrumentos, eram semelhantes aos atuais, com a diferença que os pandeiros, antes revestidos com couro de cotia, cobra ou guariba, pregado com tachas, hoje são, em sua maioria, revestidos de plástico.
O número de brincantes oscila entre 15 e 60, entre rajados, vaqueiros e índias ("tapuias guerreiras"). Entre os bois atualmente em atividade, na sede e no interior do município, podemos registrar o Rama Santa, o da Fortaleza, o de Barro Vermelho, o de Taguatinga (de Mário Campelo), o de Soledade, o de Mané Rabo, o de Marcelo, o de Emídio, o de Boa Vista e dois bois em Areia Branca (sob o comando de Reinaldo e Gonçalo, respectivamente). Muitos desses bois têm dificuldade em se manter a longo prazo; é muito comum que um novo boi apareça, seja por promessa, por cisões internas ou pela simples vontade de brincar, e dure apenas alguns anos. Entre os fatores responsáveis por isso, Seu Wilson, dono do boi Rama Santa, menciona a falta de união entre os brincantes, a falta de apoio das autoridades e o preconceito dos jovens, que hoje preferem o reggae ao bumba-boi.
Em Cururupu, à semelhança do que ocorre em quase todo o estado, os bois geralmente começam a ensaiar em maio e brincam até a morte, que pode ocorrer nos meses de agosto, setembro ou outubro e, dependendo da condição dos brincantes, envolve uma grande festa. Antigamente, diz Seu Wilson, o boi era inteiramente destruído nessa ocasião: "a gente esbandalhava ele todo, hoje não, só uma armação tá custando é 100, é 150, tem que conservar pra brincar pelo menos dois ou três anos..."
Os bois geralmente brincam por contrato, para pagamento de promessas ou para animar festas promovidas por comunidades ou por pequenos comerciantes, freqüentemente ao lado de enormes radiolas de reggae. Até algum tempo atrás, era comum os brincantes percorrerem grandes distâncias a pé, para brincar nos povoados do interior do município. Hoje em dia, isso dificilmente acontece, pois o transporte costuma estar incluído no contrato. O preço de um contrato em Cururupu pode oscilar entre 50 e 100 reais durante os festejos juninos, sendo seu preço reduzido à medida que chegam os meses de agosto e setembro. As apresentações, geralmente uma por noite, costumam acontecer nas noites de sábado, começando por volta das 11 horas e estendendo-se até a manhã do dia seguinte. Durante as apresentações, é muito comum a realização da matança, auto cômico com duração de pouco mais de uma hora.
Embora tenham existido e continuem a existir, na região, bois de outros sotaques - especialmente de zabumba e de orquestra - o boi de costa-de-mão é e sempre foi o mais difundido, estendendo-se até municípios vizinhos, como Bacuri e Serrano. Fora dessa área, contudo, só começou a ganhar projeção a partir do final da década de 60, quando o boi Rama Santa apresentou pela primeira vez o sotaque de Cururupu nos festejos juninos de São Luís. Em 1975, João Santos Pimenta, mais conhecido como João de Barro, fundou e mantém até hoje um boi desse sotaque no bairro de Vila Conceição, em São Luís. Já o Boi da Fortaleza foi o pioneiro em registro fonográfico, tendo participado de duas faixas do CD "Brincando no Arraial" volume 2, produzido pela Prefeitura de São Luís em 1996, e tendo gravado recentemente seu primeiro CD, que se encontra em fase de produção. Espera-se que apareçam mais iniciativas no sentido de divulgar para o resto do estado e do país esse boi tão bonito e injustamente pouco conhecido.
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